A guerra importa para quem?
Um sujeito pode se apropriar da palavra
para criar sobrevida a um indivíduo ou convocá-lo a morte. A escolha de uma
palavra dúbia, uma frase mal colocada, um enunciado mal escrito, podem ferir
mais que um direto no rosto ou joelhada nas costelas. O verbo que machuca,
conscientemente ou não, é uma tapa de pelica moral. Vamos à lona fisicamente
intactos, mas subjetivamente abalados. O inverso também é possível. O elogio
espontâneo, o comentário pertinente, a lembrança no bilhete. A palavra também
faz engrandecer a moral, ajusta os ponteiros do ego. Os dois extremos se
encontram nos objetivos deste sujeito enunciador.
O problema ganha volume quando esse
indivíduo que enuncia representa uma coletividade. Líderes nacionais, chefes de
empresa, diretores de cinema, mentores intelectuais, representantes de
conselhos educacionais, comandantes de tropas, pastores ou padres de igrejas.
Cada um, a seu modo, ocupa um lugar de comando que diz respeito a uma
coletividade. Qualquer coisa dita, mesmo que não planejada, pode ser
absorvida de tal maneira que conduza inúmeras pessoas a tomarem decisões
precipitadas e questionáveis. Aqui não me refiro aos casos de perda
financeira, que em si já podem configurar um desastre. Estou pensando em regimes
de exceção. E se esse sujeito enunciador fizer parte de uma estratégia política
que ultrapassa a esfera do cotidiano? E se esse indivíduo passa a incorporar ao
seu discurso palavras de extrema relevância do vocabulário social, mas que, da
maneira como são apropriadas, acabam substituindo aspectos da vida muito mais relevantes
que meros conceitos?
Parece que estou fazendo referência direta
ao tempo presente brasileiro. Tudo que pensei acima guarda relação com nossa
realidade mais à flor da pele. Mas, curiosamente,
a reflexão não partiu do “pum do palhaço” ou da lembrança dolorida do single que marcou o regime militar
brasileiro ou a sugestão do churrasco num clima de luto ou as novas
configurações sobre o que é de fato essencial no novo cotidiano pandêmico. Não
podemos perder de vista que todas as escolhas de leitura são sempre
atravessadas pela latência do espírito do tempo presente. Contudo, a obra de
arte que provocou a elaboração deste texto já foi escrita e lida faz tempo. Nada havia escrito antes porque me pareceu que a densidade do que ela apresenta solicita uma maior
duração de maturação das ideias. Ainda acho isso, mas em respeito a uma aluna
que comprou o livro depois que fiz menção a ele em sala de aula, rascunho
algumas ideias.
Os dois parágrafos que abrem esta reflexão surgiram depois que li o romance Johnny
vai à guerra (2017), do escritor e roteirista estadounidense Dalton Trumbo.
Grande livro, com grande narrativa. O tempo fez dele um clássico cult com toda razão. O romance expõe um
manifesto acalorado de Trumbo contra o uso inapropriado da linguagem por
lideranças políticas e uma bandeira contumaz contra a barbaridade da guerra.
Mas, ainda assim, não é só isso que produz de pensamento.
O livro foi publicado pela primeira vez
em 3 de setembro de 1939, exatamente três dias depois do que ficou conhecido
como “Incidente de Gleiwitz”, no qual a operação Himmler forjou um ataque
contra a estação de rádio Sender, da cidade de Gleiwitz, na Alemanha; há exatos
dois dias depois da invasão de tropas nazistas alemãs ao território polonês,
que mesmo sem uma declaração formal de guerra conduziria ao início da Segunda
Guerra Mundial; há exatos dez dias depois da assinatura do pacto de não agressão
entre nazistas e soviéticos, historicamente conhecido pelo nome de “Pacto Molotov-Ribbentrop”. Não bastasse o contexto de ebulição em que o livro chegou
às ruas, as reedições também ficaram marcadas pelo aprofundamento da guerra e
dos reflexos dela nos planos político e social. Depois dos ataques à base
americana de Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, o livro sofreu uma censura
que o impossibilitou de ser reeditado até meados da década de 1950, quando o
governo estadounidense colocou em prática uma política de contenção no
território vietcongue para deter o avanço do ideal comunista para o Vietnã do
Sul.
Se não perdermos de vista que toda obra
de arte, mesmo que ambientada em um tempo passado ou um tempo futuro, fala de certa forma
sobre a sua própria época, ou seja, pensa as questões do seu tempo, o romance
de Dalton Trumbo é um grande manifesto (na melhor acepção desta palavra) sobre
o que representa o contexto de guerras e ideologias totalitárias na realidade
do indivíduo comum.
Tenho enorme apreço pelo homem comum. Penso isto do ponto de vista da narrativa artística e historiográfica. Cada vez
mais não me interessam as grandes histórias, os grandes feitos, as grandes
figuras da história. Sou muito mais um historiador das questões metodológicas
do meu tempo – pensando esse “meu tempo” como uma longa extensão das mudanças
da historiografia iniciadas na década de 1970 – do que as narrativas produzidas
nos moldes da história oitocentista (contar os feitos dos grandes heróis). Interesso-me
muito mais pelas permanências da história que a naturalização do olhar cotidiano tende a normatizar. Os indícios, as sobras, as ruínas, os vestígios
que só o olhar atento e treinado capta. É neste sentido que o homem comum e suas
idiossincrasias ordinárias – e justamente porque ordinárias acabam passando
despercebidas – me interessam. Assim, o enredo que Trumbo apresenta com Johnny vai à guerra é exemplar ao
colocar no centro da discussão aspectos que acabam sendo quantificados pela
velocidade e, em certo sentido, necessidade, das estatísticas diárias.
Antes do fim de semana dos dias 09 e 10
de maio tínhamos alcançado a marca destrutiva de 10 mil mortes no Brasil causadas
pelos sintomas da Covid-19. O quantitativo anestesia a percepção total da
catástrofe àqueles que estão minimamente distanciados das perdas. Se você não é
um parente ou vizinho ou conhecido de uma dessas pessoas falecidas, o número de
10 mil mortos assusta e turbina o medo latente, mas não reverbera para além da
tristeza coletiva. Mas se você está próximo, emocionalmente e afetivamente, dessas
perdas, o quantitativo assustador impulsiona ainda mais a intensidade da dor:
seu ente querido não é um número, um CPF, um CNPJ. Seu ente querido tem nome,
sobrenome, afeto, cheiro, histórias, sorrisos, memórias. Por isso, volto a
dizer, Johnny vai à guerra é
emblemático neste sentido, porque desperta nessas pessoas “minimamente
distanciadas” uma alteridade e empatia fortíssima.
Faz-se necessário um breve resumo da obra: a personagem principal do romance é um
indivíduo que esteve na guerra e sobreviveu a ela. A voz que narra a história é
do próprio Johnny que experimentou os absurdos de um conflito armado. No
entanto, a potência da narrativa não está no enredo em si, mas na maneira como
esse enredo é colocado de pé. Ou seja, a potência está na linguagem. Leitor e narrador
possuem as mesmas informações sobre a condição atual da narrativa. Desde a localização espacial à localização temporal, passando pela condição física e
psicológica, até a compreensão do que houve e de que maneira chegou ao
hospital. Johnny não sabe como foi hospitalizado. Johnny não sabe onde está. Johnny
não tem a menor ideia do seu estado físico. Johnny apenas pensa. E é o seu
pensamento, sua consciência, que acompanhamos. Leitor e narrador caminham
juntos, no tempo da narrativa, para descobrir o que se deu e qual é a situação
atual.
O romance, que recomendo avidamente,
coloca em jogo algumas outras grandes questões que orbitam nosso mundo: quais são os absurdos
e os limites discursivos (se eles existem) que levam uma civilização
ao caos da guerra? Será que temos sido cúmplices de barbáries recentes? Em que medida podemos nos perceber como responsáveis pelo caos atual?
As respostas para essas perguntas não desesperadoras.
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