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Mostrando postagens de maio, 2020

A guerra importa para quem?

Um sujeito pode se apropriar da palavra para criar sobrevida a um indivíduo ou convocá-lo a morte. A escolha de uma palavra dúbia, uma frase mal colocada, um enunciado mal escrito, podem ferir mais que um direto no rosto ou joelhada nas costelas. O verbo que machuca, conscientemente ou não, é uma tapa de pelica moral. Vamos à lona fisicamente intactos, mas subjetivamente abalados. O inverso também é possível. O elogio espontâneo, o comentário pertinente, a lembrança no bilhete. A palavra também faz engrandecer a moral, ajusta os ponteiros do ego. Os dois extremos se encontram nos objetivos deste sujeito enunciador. O problema ganha volume quando esse indivíduo que enuncia representa uma coletividade. Líderes nacionais, chefes de empresa, diretores de cinema, mentores intelectuais, representantes de conselhos educacionais, comandantes de tropas, pastores ou padres de igrejas. Cada um, a seu modo, ocupa um lugar de comando que diz respeito a uma coletividade. Qualquer coisa dita, mesm...

O Brasil que afaga e o Brazil que mata

Estudando e montando algumas aulas, acabei reencontrando um texto afiado do filósofo Pedro Duarte, da PUC-Rio, para a Folha de São Paulo. Publicado em novembro do ano passado, meu chará formulou no ensaio uma reflexão sobre o pesadelo que se tornou no Brasil de 2018/2019-? o sonho de uma nação potente formulada e gerida por modernistas brasileiros em diferentes contextos. O texto me tocou não apenas pelas ideias e autores que Pedro mobiliza, mas também pelo retrato de circunstância que ele evoca: a disciplina “Filosofia da Cultura”, na PUC-Rio, ministrada pelo próprio Pedro Duarte e que cursei com grande prazer no segundo semestre do ano passado. Este aspecto é importante de ser evocado porque o cerne do raciocínio do filósofo está em dois aspectos que me são profundamente caros: a memória e a identidade, e porque eles estarão presentes aqui também. A proposta de reinvenção do Brasil formulada pelos modernistas brasileiros nas décadas de 1910 e 1920, com destaque para os artistas...