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Mostrando postagens de abril, 2020

Carta ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República

Excelentíssimo  Senhor Presidente da República , É um grande desprazer falar com o Senhor. Ainda assim, o faço por integridade a minha classe. Desculpe-me a utilização de certas palavras, como “classe”, que para Vossa Excelência possam parecer pomposas, exageradas e, em muitos casos, pertencentes a um vocabulário comunista. Tentarei não abusar de Vossa simpatia desonesta. As que escaparem à minha censura, por favor, compreenda, sou apenas o resultado das minhas leituras e experiências. Como Vossa Excelência também o é. Não desejo tomar muito do seu tempo nesse momento conturbado do reinado. Tenho conhecimento do esforço que Vossa Excelência tem empregado em pulverizar as discussões nacionais, atrapalhar determinados inquéritos policiais e em reafirmar qual a verdadeira carranca de líder que o governo possui. Isso demanda muita atenção e dedicação. Por isso compreendo, dentro de sua lógica metodológica – esta palavra tem a ver com método, com formas de trabalho escolhidas –,...

Quando o monstro sai da jaula

Monstro. Substantivo masculino. “1. Ser disforme, fantástico e ameaçador, que pode ter várias formas e cujas origens remontam à mitologia; 2. Qualquer ser ou coisa contrária à natureza; 3. Anomalia, deformidade, monstruosidade”. Significados que o dicionário apresenta à sugestão do significante. Presume-se, assim, que todo sujeito adjetivado por essa palavra estará circunscrito às características que indicam tudo que está fora da normalidade, podendo até alcançar os sentidos de “ameaçador” ou “disforme”. Voltaremos a este ponto daqui a pouco. Resistir aos impulsos do desejo não é tarefa das mais simples. Reprimir a pulsão que parte do inconsciente (possivelmente da natureza) e que se retroalimenta por diferentes motivos só parece ser concebível quando a força de negação se apresenta de forma contundente e maior. Assim, é possível dimensionar o nível de violência que precisa existir nas relações sociais para que um indivíduo aprisione dentro de si, num lugar de difícil acesso do s...

Memórias da dor

A campainha toca. A muito se espera notícias do marido. Madame Antelme caminha rápido até a porta e a abre lentamente. Encostada ao portal, a senhora Katz abaixa os olhos logo que vê Madame Antelme, sua anfitriã em Paris. Seu semblante informa que traz más notícias. Com passos curtos, entra a casa ainda com a cabeça baixa. Suspende o olhar, vira-se para Madame Antelme e a abraça. Duas mulheres, atravessadas pela mesma dor, se abraçam em silêncio. Vemos, num primeiro momento, o destaque do rosto de Antelme (olhos arregalados, tristes, ainda vivos); depois, com o corte de câmera, vemos o rosto de Katz (olhos fechados, rosto amarfanhado nos ombros da colega). “Foi envenenada por gás. Nem sabia que usavam gás. Ninguém sabia. Logo que chegou lá. Faz cinco meses que minha Dora foi para o Céu. E eu não sabia. Ainda estou aqui”. Nós sabemos do gás. A narrativa do filme dá conta da informação antes. Através da voz em off de Madame Antelme tomamos conhecimento. Poucos minutos antes. “Ouvimo...