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A guerra importa para quem?

Um sujeito pode se apropriar da palavra para criar sobrevida a um indivíduo ou convocá-lo a morte. A escolha de uma palavra dúbia, uma frase mal colocada, um enunciado mal escrito, podem ferir mais que um direto no rosto ou joelhada nas costelas. O verbo que machuca, conscientemente ou não, é uma tapa de pelica moral. Vamos à lona fisicamente intactos, mas subjetivamente abalados. O inverso também é possível. O elogio espontâneo, o comentário pertinente, a lembrança no bilhete. A palavra também faz engrandecer a moral, ajusta os ponteiros do ego. Os dois extremos se encontram nos objetivos deste sujeito enunciador. O problema ganha volume quando esse indivíduo que enuncia representa uma coletividade. Líderes nacionais, chefes de empresa, diretores de cinema, mentores intelectuais, representantes de conselhos educacionais, comandantes de tropas, pastores ou padres de igrejas. Cada um, a seu modo, ocupa um lugar de comando que diz respeito a uma coletividade. Qualquer coisa dita, mesm...

O Brasil que afaga e o Brazil que mata

Estudando e montando algumas aulas, acabei reencontrando um texto afiado do filósofo Pedro Duarte, da PUC-Rio, para a Folha de São Paulo. Publicado em novembro do ano passado, meu chará formulou no ensaio uma reflexão sobre o pesadelo que se tornou no Brasil de 2018/2019-? o sonho de uma nação potente formulada e gerida por modernistas brasileiros em diferentes contextos. O texto me tocou não apenas pelas ideias e autores que Pedro mobiliza, mas também pelo retrato de circunstância que ele evoca: a disciplina “Filosofia da Cultura”, na PUC-Rio, ministrada pelo próprio Pedro Duarte e que cursei com grande prazer no segundo semestre do ano passado. Este aspecto é importante de ser evocado porque o cerne do raciocínio do filósofo está em dois aspectos que me são profundamente caros: a memória e a identidade, e porque eles estarão presentes aqui também. A proposta de reinvenção do Brasil formulada pelos modernistas brasileiros nas décadas de 1910 e 1920, com destaque para os artistas...

Carta ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República

Excelentíssimo  Senhor Presidente da República , É um grande desprazer falar com o Senhor. Ainda assim, o faço por integridade a minha classe. Desculpe-me a utilização de certas palavras, como “classe”, que para Vossa Excelência possam parecer pomposas, exageradas e, em muitos casos, pertencentes a um vocabulário comunista. Tentarei não abusar de Vossa simpatia desonesta. As que escaparem à minha censura, por favor, compreenda, sou apenas o resultado das minhas leituras e experiências. Como Vossa Excelência também o é. Não desejo tomar muito do seu tempo nesse momento conturbado do reinado. Tenho conhecimento do esforço que Vossa Excelência tem empregado em pulverizar as discussões nacionais, atrapalhar determinados inquéritos policiais e em reafirmar qual a verdadeira carranca de líder que o governo possui. Isso demanda muita atenção e dedicação. Por isso compreendo, dentro de sua lógica metodológica – esta palavra tem a ver com método, com formas de trabalho escolhidas –,...

Quando o monstro sai da jaula

Monstro. Substantivo masculino. “1. Ser disforme, fantástico e ameaçador, que pode ter várias formas e cujas origens remontam à mitologia; 2. Qualquer ser ou coisa contrária à natureza; 3. Anomalia, deformidade, monstruosidade”. Significados que o dicionário apresenta à sugestão do significante. Presume-se, assim, que todo sujeito adjetivado por essa palavra estará circunscrito às características que indicam tudo que está fora da normalidade, podendo até alcançar os sentidos de “ameaçador” ou “disforme”. Voltaremos a este ponto daqui a pouco. Resistir aos impulsos do desejo não é tarefa das mais simples. Reprimir a pulsão que parte do inconsciente (possivelmente da natureza) e que se retroalimenta por diferentes motivos só parece ser concebível quando a força de negação se apresenta de forma contundente e maior. Assim, é possível dimensionar o nível de violência que precisa existir nas relações sociais para que um indivíduo aprisione dentro de si, num lugar de difícil acesso do s...

Memórias da dor

A campainha toca. A muito se espera notícias do marido. Madame Antelme caminha rápido até a porta e a abre lentamente. Encostada ao portal, a senhora Katz abaixa os olhos logo que vê Madame Antelme, sua anfitriã em Paris. Seu semblante informa que traz más notícias. Com passos curtos, entra a casa ainda com a cabeça baixa. Suspende o olhar, vira-se para Madame Antelme e a abraça. Duas mulheres, atravessadas pela mesma dor, se abraçam em silêncio. Vemos, num primeiro momento, o destaque do rosto de Antelme (olhos arregalados, tristes, ainda vivos); depois, com o corte de câmera, vemos o rosto de Katz (olhos fechados, rosto amarfanhado nos ombros da colega). “Foi envenenada por gás. Nem sabia que usavam gás. Ninguém sabia. Logo que chegou lá. Faz cinco meses que minha Dora foi para o Céu. E eu não sabia. Ainda estou aqui”. Nós sabemos do gás. A narrativa do filme dá conta da informação antes. Através da voz em off de Madame Antelme tomamos conhecimento. Poucos minutos antes. “Ouvimo...

Verdade de fato

É legítimo dizer a verdade sob qualquer circunstância? A provocação ajuda a nortear os atravessamentos que a efeméride causa. A data de 31 de março enquadra o deflagrar do golpe civil-militar brasileiro em 1964. Muito já foi pesquisado, escrito, debatido, testemunhado, relatado, discutido, filmado e apresentado sobre o ambiente e as personagens do contexto ditatorial brasileiro. Ressalto, por exemplo, a Comissão Nacional da Verdade, inaugurada em 2011, sob o governo da presidenta Dilma Rousseff, também ela uma vítima do regime militar, como um marco social e político. É fundamental lembrarmos que a Comissão se constituiu de um colegiado instituído pelo governo Dilma para investigar violações de direitos humanos decorridas na ditadura – importante ressaltar que o escopo temporal de investigação partiu de um período anterior a 1964, começando a partir de 18 de setembro de 1946. A Comissão não pressupunha julgamento, mas investigação. Recolha e constituição de fatos sobre o período. ...

Só a bailarina que não tem

INT. ESTÚDIO DO ARTISTA – PARIS – DIA – 1872 Um estúdio de pintura repleto de quadros, tintas, pincéis e cavaletes. Clima tenso, todos se preparam para iniciar suas obrigações. Acompanhamos um pintor elegantemente vestido todo de cinza, de costas e em pé. Ele pega o pincel e mistura algumas tintas com a mão direita. Fecha e abre a mão esquerda. Parece que é um toque obsessivo que possui. Depois desabotoa a sobrecasaca e senta no banco em frente a um cavalete. Só então se prepara para começar a pintura. Aos 38, DE GAS parece um obsessivo com o pincel na mão. Não vemos seus olhos, mas seu corpo faz parecer sua compulsão. Gestos curtos, rápidos, precisos. Parece não poder perder tempo. As únicas partes do corpo que mexem são o braço direito, a mão esquerda que pressiona um pedaço de pano e a cabeça. Deslocada à esquerda do enquadramento de DE GAS vemos MARIE, garota de 14 anos. Vestida com malha de balé, apresenta semblante fechado. Está na quarta posição do balé. Nã...