Quando o monstro sai da jaula



Monstro. Substantivo masculino. “1. Ser disforme, fantástico e ameaçador, que pode ter várias formas e cujas origens remontam à mitologia; 2. Qualquer ser ou coisa contrária à natureza; 3. Anomalia, deformidade, monstruosidade”. Significados que o dicionário apresenta à sugestão do significante. Presume-se, assim, que todo sujeito adjetivado por essa palavra estará circunscrito às características que indicam tudo que está fora da normalidade, podendo até alcançar os sentidos de “ameaçador” ou “disforme”. Voltaremos a este ponto daqui a pouco.
Resistir aos impulsos do desejo não é tarefa das mais simples. Reprimir a pulsão que parte do inconsciente (possivelmente da natureza) e que se retroalimenta por diferentes motivos só parece ser concebível quando a força de negação se apresenta de forma contundente e maior. Assim, é possível dimensionar o nível de violência que precisa existir nas relações sociais para que um indivíduo aprisione dentro de si, num lugar de difícil acesso do subconsciente (tornando-se um trauma), o desejo proibido pelo outro. Também voltaremos a este ponto daqui a pouco.
Terminei de ler Cloro (2018), romance do escritor brasileiro Alexandre Vidal Porto, há um mês. Estou esse tempo todo ruminando a trama. Influenciado por ela pensei os dois primeiros parágrafos e decidi escrever sobre isso. De primeira, afirmo ser um grande romance contemporâneo brasileiro. Alcança de forma clara e afiada assuntos que ainda hoje, apesar de tantas desconstruções e reformas, são tratados como tabus pela sociedade. Recalcamento, violência, preconceito. Temas mais do que em voga num país de intolerantes, ignorantes e apreciadores da inutilidade.
A partir da narração de Constantino, homem de meia idade, Vidal Porto apresenta uma potente reflexão sobre a tentadora força da sexualidade. O faz de forma inteligente: decide contar a história a partir de um narrador morto, que se “encontra” em um não-lugar escuro onde apenas a consciência ocupa o espaço, “em alguma espécie de inexistência eterna”. Só a segurança de uma consciência sem corpo físico para garantir e incentivar a revelação de segredos recalcados por toda uma vida. Principalmente quando essa rememoração se dá a um leitor desconhecido que não pode julgar suas ações e suas escolhas. É um ótimo artifício para refletir sobre as privações que os seres humanos são obrigados a realizar quando vivem socialmente.
Constantino foi um homem que desejou sexualmente outros homens. Contudo, se privou do impulso natural por quase toda a vida para não ser hostilizado. Casado com Débora e pai de dois filhos, André e Léa, vivenciou muito jovem, ainda no colégio, a primeira e única experiência de choque entre sua identidade natural e os limites de aceitação do social: “Um dia me chamaram de bicha. Foi o Marcos Bauer quem, do nada, me chamou de bicha e me deu um soco na barriga na saída da escola, na frente de todo mundo. Foi uma ofensa definitiva, que ficou ecoando para sempre na minha cabeça”.
Marcos Bauer, um jovem menino, como o protagonista, fez as honras da mentalidade patriarcal e machista. Inaugurou uma sentença devastadora: existem identidades que não são aceitáveis no corpo social. Identidades que ameaçam a “normalidade”, o “padrão”, e que, por isso, devem ser excluídas.
É importante lembrar que nós não nascemos odiando os outros. O preconceito não é uma característica pré-determinada na cadeia genética. Todo prejulgamento é uma construção social e histórica. É cultural. Tornamo-nos machistas, racistas e misóginos porque somos educados, direta ou indiretamente, para sermos. As crianças aprendem mais pela repetição dos gestos e posturas dos pais do que compreendendo o que eles falam em si. Por isso o pensamento relacional e ingênuo de Constantino depois da violência sofrida: “Concluí que ‘bicha’ e o que eu sentia quando o professor de natação me abraçava – e que eu instintivamente escondia – eram relacionados. Aquela palavra, ‘bicha’, que me definia contra minha vontade, tirava de mim a possibilidade de inocência”.
Como tenho dito, as palavras ferem. Matam muita das vezes. A capacidade de sobrevivência do corpo físico à palavra definidora de uma única identidade retira qualquer chance de crescimento saudável e natural da criança, posto que coloca em xeque a possibilidade de inocência, ou seja, apodrece o que existe de mais peculiar na infância. A criança deixa de ser criança e passa ela mesma a se censurar. O projeto de extermínio das diferenças alcança o seu apogeu: a vítima absorve as armas do detrator e se antecipa à violência externa. “Durante muitos anos, agradeci a Marcos Bauer o alerta antecipado. Ele me serviu como aviso de que ser bicha não era bom. Tive tempo de me preparar. Por anos, valorizei esse ensinamento”. 
 Constantino se relacionou com a esposa durou quase toda a vida. Conheceram-se bem jovens, por volta dos 15 anos, quando estiveram juntos no Acampamento do Tamanduá. Uma relação estável e duradoura, mas que se fragilizou num determinado momento depois que um trágico acontecimento fissurou a família. Não vem ao caso esmiuçar o acontecimento, mas é interessante saber que o casamento em si não foi fragilizado. A esposa nunca desconfiou que o marido pudesse gostar de outros homens. Quer dizer, Constantino nunca permitiu que sua sexualidade fosse colocada em questão. Privou-se por quase toda a vida. Quase.

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