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Mostrando postagens de março, 2020

Verdade de fato

É legítimo dizer a verdade sob qualquer circunstância? A provocação ajuda a nortear os atravessamentos que a efeméride causa. A data de 31 de março enquadra o deflagrar do golpe civil-militar brasileiro em 1964. Muito já foi pesquisado, escrito, debatido, testemunhado, relatado, discutido, filmado e apresentado sobre o ambiente e as personagens do contexto ditatorial brasileiro. Ressalto, por exemplo, a Comissão Nacional da Verdade, inaugurada em 2011, sob o governo da presidenta Dilma Rousseff, também ela uma vítima do regime militar, como um marco social e político. É fundamental lembrarmos que a Comissão se constituiu de um colegiado instituído pelo governo Dilma para investigar violações de direitos humanos decorridas na ditadura – importante ressaltar que o escopo temporal de investigação partiu de um período anterior a 1964, começando a partir de 18 de setembro de 1946. A Comissão não pressupunha julgamento, mas investigação. Recolha e constituição de fatos sobre o período. ...

Só a bailarina que não tem

INT. ESTÚDIO DO ARTISTA – PARIS – DIA – 1872 Um estúdio de pintura repleto de quadros, tintas, pincéis e cavaletes. Clima tenso, todos se preparam para iniciar suas obrigações. Acompanhamos um pintor elegantemente vestido todo de cinza, de costas e em pé. Ele pega o pincel e mistura algumas tintas com a mão direita. Fecha e abre a mão esquerda. Parece que é um toque obsessivo que possui. Depois desabotoa a sobrecasaca e senta no banco em frente a um cavalete. Só então se prepara para começar a pintura. Aos 38, DE GAS parece um obsessivo com o pincel na mão. Não vemos seus olhos, mas seu corpo faz parecer sua compulsão. Gestos curtos, rápidos, precisos. Parece não poder perder tempo. As únicas partes do corpo que mexem são o braço direito, a mão esquerda que pressiona um pedaço de pano e a cabeça. Deslocada à esquerda do enquadramento de DE GAS vemos MARIE, garota de 14 anos. Vestida com malha de balé, apresenta semblante fechado. Está na quarta posição do balé. Nã...

Plague Inc.

Oscar Wilde disse certa vez que o Real se constitui como uma cópia da arte. É comum afirmarmos em coversas, salas de aula e seminários o inverso dessa sentença: que a arte é produto da sensibilidade de artistas em contato (experiência) com a realidade. Ou seja, a arte é entendida por nós como uma representação do Real, e que por isso pode ser entendida como uma imitação da realidade. Esta não é uma afirmação equivocada – vai depender muito do contexto histórico que estamos nos referindo. No entanto, Wilde aponta um deslocamento de raciocínio que ganha volume no século XX e XXI: a literatura e as artes, quando bem realizadas, dão conta de tal maneira dos dramas humanos que acabam funcionando como termômetros de sentimentos, pensamentos e costumes. Por isso, se quiser refletir sobre as práticas humanas em diferentes épocas históricas, recomendo que consuma arte. Em tempos de fim de mundo, como este que nos encontramos em meio à cólera da Covid-19, alguns títulos têm retornado ao imag...

Escrever para não perecer

É possível escrever a dor, o silêncio, a saudade e a solidão? Não utilizo a preposição sobre depois do verbo “escrever” de propósito. Utilizá-la levaria a uma compreensão equivocada do meu questionamento. Minha provocação não parte de querer saber se é possível falar sobre a dor, o silêncio, a saudade e a solidão. Isso nós sabemos que é. Desejo saber se é realizável, através das limitações da palavra escrita, traduzir em signos sentimentos que são vivenciados subjetivamente. Por isso lanço mão do artigo a ao invés da preposição sobre . Tudo não deixa de ser uma questão de escrita. Mas, então, é possível? Marguerite Duras mostrou ser. Artista múltipla, a francesa nascida no Vietnam encontrou na escrita uma ferramenta para dimensionar os sentimentos humanos. Pois é disso que se trata: da dimensão que as palavras conseguem atingir ao serem tecidas por uma artista. E quando falo em dimensão estou pensando também em experiência. Escrita é experiência. É submeter o leitor a uma sensa...

Escrever

ABERTURA     Escrevo porque preciso. Tanto do verbo precisar quanto do substantivo precisão . O primeiro diz respeito à minha profissão. O segundo tem a ver com o que defendo: escrever é uma ação política. E política na mais ampla compreensão do que ela pode sugerir – não me venham com os reducionismos de política como sinônimo de partido político. Todo texto escrito é lugar onde se deseja marcar uma experiência, uma ideia que se quer partilhar. Nenhum escritor escreve apenas para si, mas para o outro. Esta abertura faz do gesto da escrita um espaço político: o leitor ativa a experiência e testemunha o relato. É sempre um diálogo entre aquele que precisa dizer e aquele que deseja ouvir. Dois corpos aptos à ação. Exercício político. O texto é, por isso, uma potência, embora seja também um ato. E é sobre o ato que venho pensar hoje. A ideia quando escrita ganha materialidade. Sobrevida. Torna-se permanência. Cicatriz. Marca indelével. É fácil concordarmos com isso: as...