Só a bailarina que não tem


INT. ESTÚDIO DO ARTISTA – PARIS – DIA – 1872

Um estúdio de pintura repleto de quadros, tintas, pincéis e cavaletes. Clima tenso, todos se preparam para iniciar suas obrigações.

Acompanhamos um pintor elegantemente vestido todo de cinza, de costas e em pé. Ele pega o pincel e mistura algumas tintas com a mão direita. Fecha e abre a mão esquerda. Parece que é um toque obsessivo que possui.

Depois desabotoa a sobrecasaca e senta no banco em frente a um cavalete. Só então se prepara para começar a pintura.

Aos 38, DE GAS parece um obsessivo com o pincel na mão. Não vemos seus olhos, mas seu corpo faz parecer sua compulsão. Gestos curtos, rápidos, precisos. Parece não poder perder tempo. As únicas partes do corpo que mexem são o braço direito, a mão esquerda que pressiona um pedaço de pano e a cabeça.

Deslocada à esquerda do enquadramento de DE GAS vemos MARIE, garota de 14 anos. Vestida com malha de balé, apresenta semblante fechado. Está na quarta posição do balé. Não movimenta nenhuma parte do corpo.

Não há comunicação na cena. Apenas o som do pincel no quadro e nos suportes de tinta é escutado. O quadro vai se fazendo aos poucos. Uma imagem representada começa a surgir. Ganha vida a obra. O artista está vivo, pleno. É criador de mais uma criatura. Outros quadros, da mesma temática, povoam o cenário. Só a bailarina que não tem vida. Inerte. Apenas respira.

INT. SALA DE CASA – COPACABANA – DIA – 1983

Uma bela casa de estilo modernista incrustada no pé de um morro, com vista para o mar de Copacabana.

Na varanda da casa, sentado à mesa farta de café da manhã, está FRANCISCO, 39, elegante e longilíneo em sua jovialidade. Segura um cigarro na mão esquerda e um lápis na mão direita.

A casa é cercada por um jardim gramado. Há uma grande piscina iluminada pelos raios de sol. Na lateral da casa, fica um ambiente totalmente independente.

Sentado à frente de FRANCISCO está EDUARDO, 40, também elegante e altivo em seu terno. Seu cabelo está penteado delicadamente para o lado, como lhe é de costume. Dedilha um violão enquanto conversa com FRANCISCO.

FRANCISCO
Interessante seria se apenas ela não tivesse. Todo mundo tem, só ela que não.

EDUARDO
Exato. E melodicamente fica interessante o refrão “todo mundo tem”. Como uma ciranda de infância.

FRANCISCO
Isso. Dialoga harmonicamente com a história de Beatriz. Então o que acha desse início: “Procurando bem/ Todo mundo tem pereba/ Marca de bexiga ou vacina/ E tem piriri, tem lombriga, tem ameba/ Só a bailarina que não tem"? Essa pode ser a pegada da letra inteira. O que acha?

EDUARDO
Para mim, perfeito. E para a peça fica ótima a melodia do verso “Só a bailarina que não tem”. Uma excluída, coitada.

Ambos riem.

INT. CASA – SANTA TERESA – DIA – 2020

Uma casa antiga, repleta de cupim, mas muito bem arrumada.

Na sala está PEDRO, 28. Desarrumado, com roupas de pijama, cabelo desgrenhado e barba enorme, escreve no caderno que tem a sua frente.

Na mesa, livros espalhados e um computador ligado.

Vemos em close o diário que escreve.

REGISTRO DO DIÁRIO
24.03.2020.
Nono dia de quarentena. Vigésimo oitavo aniversário. Ainda confinado e sem expectativa de ver a rua. Nunca imaginei que fosse sentir tanta falta de sair. Logo eu que gosto de casa. Neste momento, já sei de cor a quantidade de tábuas, ladrilhos e parafusos desta casa. E olha que estamos apenas no nono dia de reclusão. Nono!
*
Hoje é dia de escrever para a coluna. Ideia de texto: a filha da Elika (acho que foi ela, não sei) fez uma música para as negações que o presidente tem dado sobre estar contaminado de coronavirus, enquanto todas as pessoas ao seu redor estão. Ela faz uma paródia da letra “Ciranda da bailarina”, do Chico Buarque e Edú Lobo. A ideia é muito boa. O texto poderia caminhar por aí.
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A comitiva presidencial que viajou à Flórida nos dias 7 e 10 de março e que acusaram positivo no teste da Covid-19: o ministro Bento Albuquerque (Minas e Energia); o ministro Augusto Heleno (Segurança Institucional); o secretário de comércio exterior, Marcos Troyjo; o diplomata Nestor Forster; o chefe da Secom, Fabio Wajngarten (ao que tudo indica, quem começou a contaminação) e o motorista do presidente. Mas apenas ela, a bailarina, que não tem.
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A ideia é boa. Mas acho que o texto não vai ficar bom. Vamos ver.

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