Escrever
ABERTURA
Escrevo porque preciso. Tanto do verbo precisar quanto do substantivo precisão. O primeiro diz respeito à
minha profissão. O segundo tem a ver com o que defendo: escrever é uma ação política.
E política na mais ampla compreensão do que ela pode sugerir – não me venham
com os reducionismos de política como sinônimo de partido político.
Todo texto escrito é lugar onde se deseja
marcar uma experiência, uma ideia que se quer partilhar. Nenhum escritor
escreve apenas para si, mas para o outro. Esta abertura faz do gesto da escrita
um espaço político: o leitor ativa a experiência e testemunha o relato. É
sempre um diálogo entre aquele que precisa dizer e aquele que deseja ouvir.
Dois corpos aptos à ação. Exercício político. O texto é, por isso, uma potência,
embora seja também um ato. E é sobre o ato que venho pensar hoje.
A ideia quando escrita ganha
materialidade. Sobrevida. Torna-se permanência. Cicatriz. Marca indelével. É
fácil concordarmos com isso: as palavras machucam, é um fato. Mesmo que ditas
oralmente. Principalmente, eu diria. No entanto, quando registradas
verbalmente, corporificadas em palavra, transcendem. De marcas se tornam chagas.
De cicatrizes se tornam traumas. Exemplo: abra seu diário e leia as primeiras
páginas.
Mas nem tudo são flores. Organizar o
pensamento verbalmente, ordenar as ideias com vestes de palavra escrita, não é
um exercício fácil. Requer treino, insistência, suor, permanência, erro. Todos
os grandes escritores disseram e dizem isso. Todos, sem tirar nem por. A ideia,
mesmo que ínfima, quando dá rasante na imaginação, deixa pelo caminho pequenas
sementes e penas perdidas. A semente sobre o solo pode até criar raiz, mas
dificilmente dará fruto se não houver trabalho de intervenção externa. Coletar
as ideias é só o primeiro passo. Cavar o solo, colocar as sementes, devolver a
terra ao buraco, umedecer o espaço, limpar o terreno. Os dias posteriores
também são de luta: regar, limpar novamente, retirar os bichos inconvenientes.
Trabalhar as palavras, em suma.
“Escrever. Não posso. Ninguém pode. É
preciso dizer: não se pode. E se escreve”. Marguerite Duras escreveu para não
enlouquecer. Materializou a dor para, talvez, solucioná-la. Ao menos tentar
aplacá-la. Usou do verbo para nos falar da vida, da dor, do choro e do próprio
ato de escrever. Fez da escrita um chamamento à vida. Se isso não é ser
político, não sei o que pode ser. Mas não acreditem que este gesto é uma
particularidade de Duras. Muitos e muitos outros indivíduos sensíveis se
debruçaram sobre a carpintaria da palavra para falar de si, dos outros, de nós.
Escrever é descobrir a si mesmo pelos
olhos do outro. Mesmo que esse outro seja você mesmo em outro tempo. Por isso
escrevo: para exercitar, para aprender, para entender, para me conhecer. E, em
última circunstância, para ser lido. Caso isso seja possível.
(Continua na semana que vem.)
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