Carta ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República
Excelentíssimo Senhor
Presidente da República,
É um grande desprazer falar com o Senhor. Ainda assim, o faço
por integridade a minha classe. Desculpe-me a utilização de certas palavras,
como “classe”, que para Vossa Excelência possam parecer pomposas, exageradas e,
em muitos casos, pertencentes a um vocabulário comunista. Tentarei não abusar
de Vossa simpatia desonesta. As que escaparem à minha censura, por favor,
compreenda, sou apenas o resultado das minhas leituras e experiências. Como
Vossa Excelência também o é.
Não desejo tomar muito do seu tempo nesse momento conturbado do
reinado. Tenho conhecimento do esforço que Vossa Excelência tem empregado em
pulverizar as discussões nacionais, atrapalhar determinados inquéritos
policiais e em reafirmar qual a verdadeira carranca de líder que o governo
possui. Isso demanda muita atenção e dedicação. Por isso compreendo, dentro de
sua lógica metodológica – esta palavra tem a ver com método, com formas de
trabalho escolhidas –, que não é possível ler e interpretar todos os projetos
de lei que estacionam à sua mesa. Não venho aqui reclamar destas posturas –
não porque concordo com elas, de maneira nenhuma, mas por que não acredito mais
na validade de um gesto como este numa carta.
Se já vou me estendendo nesse circunlóquio – desculpe, nessa embromação
– é porque queria criar uma sinergia – perdão, uma união – entre nós. Não nos
conhecemos pessoalmente. Espero que assim permaneça para sempre. Mas,
entenda, essa carta não é para afrontá-lo. De maneira nenhuma. Apenas desejo
tirar uma dúvida a respeito de uma notícia recente que toca diretamente o meu
fazer diário: quais foram os motivos para o Planalto, ou seja, Vossa Excelência,
vetar a regulamentação da profissão de historiador?
Pelamor dos deuses – quer dizer, do único deus (ops!), Deus,
soberano –, não estou interrogando e nem duvidando de seus objetivos com o
veto. Não ache que estou servindo de artifício – ai, desculpa de novo, truque –
do seu ex-melhor-amigo Conge para prejudicar ainda mais Vossa Excelência com
seu eleitogado – ops, eleitorado. Meu desgosto pelo ex-melhor-amigo-herói-da-pátria-do-Brasil-oficial-salve-salve-Deus-acima-de-tudo-Brasil-acima-de-todos
é tão grande quanto o desgosto que nutro por Vossa Excelência, quiçá – perdão,
talvez – seja maior. Por isso podemos, neste momento, criar alguma siner...
união.
Mil desculpas! Ainda não consegui chegar ao cerne – meu deus
do céu, ao meio – do que quero falar a Vossa Excelência e esta carta já está demasiadamente
– muito – longa. Mas sinto que é inevitável – digo, impossível – escrever para
o PRESIDENTE DO REINADO DO BRASIL (escrevi em caixa alta para tentar agradar a
Vossa Excelência) sem criar uma aproximação.
Vossa Excelência já deve ter percebido que não faço parte do
seu reinado. Sou um daqueles que não participou do seu grupo e, ainda pior,
que possui ojeriza (me desculpe, Vossa Excelência, mas não vou traduzir essa
palavra por medo de represália ao que ela significa – pergunte ao Guedes se permanecer
a curiosidade) à sua pessoa. Mas imbuído – ops, tomado – por uma lufada – ai...
baforada – de espírito democrático, mando esta carta para tentar criar uma fala
cordial (não é aquele conceito do histor.... quer dizer, esquece; o senhor nem
imagina o que eu estou falando).
Senhor Presidente, porque o senhor vetou o projeto de lei do
senador Paim para regulamentar a profissão de historiador? Só porque o senador
Paulo Paim é do PT? Não duvido que esse seja o motivo real. Mas, fora isso,
qual outro motivo para o veto?
Eu li a justificativa. Vossa Excelência diz que o projeto “ofende
direito fundamental previsto na Constituição ao restringir o livre
exercício profissional, além de ofender a previsão constitucional de que ‘é
livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de
comunicação, independentemente de censura ou licença’”. Mas o quê que uma coisa
tem a ver com a outra, Senhor Presidente?
Senhor
Presidente, tente me acompanhar: a regulamentação da profissão de historiador não
proíbe outros profissionais de se dedicarem à escrita
da história. Como esse deve ter sido um dos projetos de lei que o senhor não
leu, faço questão de colocar novamente aqui os argumentos do relator do projeto:
“poderá exercer a atividade de historiador quem tem diploma de curso superior,
mestrado ou doutorado em História; diploma de mestrado ou doutorado obtido em
programa de pós-graduação reconhecido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (Capes) com linha de pesquisa dedicada à história; e
profissionais diplomados em outras áreas que comprovarem ter exercido a profissão
de historiador por mais de cinco anos”. Ou seja, Senhor Presidente, em nenhum
lugar fala que outros profissionais serão punidos por se dedicarem à História.
Será que o senhor não sabe o que significa “exercer a atividade de historiador”?
Senhor
Presidente, vou contar uma história a Vossa Excelência – desculpe-me, não quis
criar nenhum trocadilho barato com essa frase.
A história
não é única. Ou seja, não existe em si. Ela é uma construção, como bem o senhor
sabe disso. Assim, se ela é uma construção no tempo e no espaço, ela também
está suscetível – quer dizer, sujeita – a uma história. Então, seguindo o raciocínio
simples, Senhor Presidente, a própria ciência História – não deixa seus
ministros lerem esta carta, Senhor, por favor – tem uma história.
Se eu falar
em “regimes de historicidade” o Senhor vai compreender o que eu estou falando?
Explico: se a gente rejeita a noção de continuidades e rupturas no discurso
histórico, afirmando que esta maneira de interpretar o tempo histórico é um
equívoco, nos aproximamos de uma noção de regime (modos de regulação) de
historicidade (qualidade daquilo que tem valor histórico; uma máquina de
funcionamento). Desta forma, o que é dotado de historicidade em um determinado
momento, não será dotado da mesma maneira em outro. A história é viva. É feita
por pessoas. Em constante processo.
É por isso, Senhor
Presidente, que a maneira de se fazer História modificou tanto ao longo dos
séculos. Veja só: do século XVI até o XVIII a história tinha uma noção próxima ao de “mestra
da vida”, ou seja, uma narrativa que fornecia exemplos à luz da memória. Os
homens letrados, isto é, os cortesãos, trabalhavam na tópica ciceroniana – eu sei,
desculpe, exagerei demais agora. A história tinha como função elogiar o
príncipe, os heróis; a narrativa era moeda de troca. Fazia parte da economia de
mercês da época. Em síntese – quer dizer, em resumo –, o valor histórico
consistia a partir de tópicos, como, por exemplo: testemunho ocular, letras e
armas, providência divina (olha aí, Vossa Excelência!!!), modéstias
extremamente afetadas. Nesse tempo, então, a história estava a serviço de
fornecer exemplos a partir dos soberanos. Viu, Vossa Excelência, o Senhor
acabou de aprender que se encontra mentalmente nesta temporalidade. O Senhor é
um indivíduo do século XVI, XVII.
No entanto,
na segunda metade do século XVIII para o início do século XIX essa mentalidade
sobre o fazer da história sofreu enormes modificações por conta de um detalhe
muito importante: a ficção ganhou autonomia (quer dizer, andar pelas próprias pernas) da ordem histórica. A categoria da literatura, a autonomia das artes frente
à história, obrigou que toda narrativa que se pretendesse histórica criasse outras
bases para validar seu discurso. Assim, a verdade histórica passou a ser a
erudição, ou seja, a ideia de prova (documento histórico) se torna necessária e
imprescindível – desculpe, incontornável – para produzir sentido e ser
entendida. Os homens de letras do século XIX (os diplomatas, principalmente)
começam então a criar instituições que atestem a validade do discurso histórico
– Vossa Excelência não deve fazer a mínima ideia da existência do IHGB
(Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), mas aproveito para informar que
essa instituição foi criada, justamente, neste século.
Contudo, a
transformação do discurso histórico não parou no século XIX. Até a primeira
metade do século XX ainda veremos essa mentalidade de um discurso histórico
pautado na crítica documental como gênero único, em que o historiador seria
aquele profissional que apenas completaria a História, ou seja, restaria apenas
ao pesquisador o preenchimento de uma narrativa que os arquivos já
apresentavam. A mudança que revolucionou – desculpe, Senhor Presidente, não
cometerei o erro novamente de utilizar palavra tão imprópria – o discurso
histórico aconteceu no ano de 1929. Esta primeira e única precisão de
data vem porque foi a partir da inauguração de uma revista francesa – não sei
se interessa ao Senhor o nome dela, mas na dúvida, Annales – que os métodos de
produção sobre a história se modificaram completamente.
A partir
desse momento, o caráter do que é histórico muda. A construção do discurso
histórico passa a estar centrado no que chamaremos de “problema”. Assim, o
regime de historicidade muda porque o estatuto do acontecimento muda. A
realidade passa agora a ser pensada de modo estrutural, os fenômenos de massa
são trabalhados a partir de macromodelos de compreensão. De maneira
quantitativa o historiador levanta suas hipóteses e constrói uma narrativa.
E a história
continua, Vossa Excelência. Eu poderia continuar aqui por mais páginas e
páginas. Deixei passar muitos detalhes e nomes porque acredito que o senhor não
ligue para eles. O ponto central é: porque não regulamentar a
profissão do historiador? O Senhor não percebeu como a ciência histórica é plural e repleta
de métodos? Quando nós fazemos uma faculdade de História – novamente, peço para
que não mostre esta carta para seus ministros –, além da maconha, das surubas e
das festas repletas de álcool que seu ministro insiste em dizer que todos nós fazemos,
somos obrigados a passar por um currículo básico repleto de disciplinas que
mais pensam o “fazer da história” do que as “narrativas dos fatos sobre
história”.
Veja, Vossa
Excelência, que irônico: aprendemos mais na faculdade como se constituem os
discursos sobre as historicidades do que propriamente sobre o que aconteceu
na data x ou no evento y. Aprendemos mais a pensar historicamente (e os
métodos possíveis para isso) do que a decorar fatos. Por isso, senhor, o
historiador é importante: não é porque ele tem privilégio sobre o discurso da
história, mas porque ele passou quatro anos (ou mais) da vida dele sendo
aparelhado cognitivamente a pensar cientificamente – desculpa, precisei usar essa palavra. E
cientificamente – usei de novo – significa pensar a partir de uma estrutura incontornável:
objetivos-hipóteses-método-rigor.
Senhor
Presidente, eu sei que o Senhor parou de ler no primeiro parágrafo. Não tem
problema. Continuei falando porque sei que em algum momento essa carta se
tornará pública. Será nesse momento que eu terei deixado claro, para a história, que
eu não estava de acordo com a sua ideologia. Desculpe, Senhor Presidente, mas
esta carta, desde o início, não estava endereçada apenas a Vossa Excelência,
mas a mim mesmo no futuro. Para que eu sempre possa colocar minha cabeça no
travesseiro com a consciência tranquila de que aos 28 anos de idade eu honrei
meus mestres intelectuais e todo o meu universo de preocupações optando
declaradamente e corajosamente com o lado das minorias políticas da História. O
lado que não é o que o Senhor representa.
Cordialmente,
Pedro Beja
Comentários
Postar um comentário