Plague Inc.
Oscar Wilde disse certa vez que o Real se
constitui como uma cópia da arte. É comum afirmarmos em coversas, salas de aula
e seminários o inverso dessa sentença: que a arte é produto da sensibilidade de
artistas em contato (experiência) com a realidade. Ou seja, a arte é entendida
por nós como uma representação do Real, e que por isso pode ser entendida como
uma imitação da realidade. Esta não é uma afirmação equivocada – vai depender
muito do contexto histórico que estamos nos referindo. No entanto, Wilde aponta
um deslocamento de raciocínio que ganha volume no século XX e XXI: a literatura
e as artes, quando bem realizadas, dão conta de tal maneira dos dramas humanos
que acabam funcionando como termômetros de sentimentos, pensamentos e costumes.
Por isso, se quiser refletir sobre as práticas humanas em diferentes épocas
históricas, recomendo que consuma arte.
Em tempos de fim de mundo, como este que
nos encontramos em meio à cólera da Covid-19, alguns títulos têm retornado ao
imaginário social e esgotado rapidamente nas livrarias por todo o planeta. É o
caso, por exemplo, de Ensaio sobre a
cegueira, de José Saramago, e A peste,
de Albert Camus. A Itália, um dos primeiros países a decretar medidas de
quarentena nacional depois da China, epicentro da pandemia, viu sua população entrar
em colapso de maneira semelhante aos personagens do caos criado pelo escritor
português – sem aviso e explicação prévia, toda a população fica cega (física e
moral), vendo tudo numa “cor branca uniforme, densa, como se encontrasse
mergulhado de olhos abertos num mar de leite” – e pelo escritor argelino – como
uma metáfora da expansão nazista pela Europa, Camus constrói um romance denso
sobre os efeitos devastadores da peste bubônica na população de Orã, cidade da
Argélia. Em certa medida, tanto Saramago como Camus produzem boias para os dias
de hoje. Os dois romances questionam assuntos relacionados à condição humana e
encaram frontalmente as possibilidades de sobrevivência do ser humano no mundo em
crise: o que fazer quando as práticas de convívio social entram em colapso?
Saramago, mais irônico e sarcástico do
que Camus, “profetiza” os discursos e ações dos governantes brasileiros para
coibir e remediar a cegueira|Covid-19. Já Camus, mais reflexivo e
existencialista que Saramago, aponta a solidariedade de trabalhadores frente à
peste como uma alternativa “natural” a se tomar quando a vida de todos está em
risco – quando a existência do Ser depende diretamente da alteridade. Os
chineses absorveram melhor Camus. Nossos governantes se embeveceram pelas
palavras medíocres dos Ministros de Saramago.
Mas não é só com a literatura que a vida encontra
material para imitar. Os jogos estão aí para testar e simular inúmeras possibilidades
de destruição. Já perceberam como grande parte dos jogos de videogame e
tabuleiro preveem sempre destruições em massa? Esta premissa é muito bem
incorporada pelo jogo de simulação Plague Inc. Desenvolvido e patenteado pelo estúdio
de jogos Ndemic Creations, com sede no Reino Unido, a plataforma de estratégia utiliza
uma premissa simples: o jogador cria e evolui um patógeno com objetivo de se
propagar pelo mapa múndi a fim de aniquilar toda a população humana. Um jogo
que existe para dizimar a raça humana.
A jogabilidade é extremamente simples.
Criamos um nome para a praga; escolhemos um lugar no mapa para começar o
contágio; observamos a propagação paulatina do patógeno; controlamos as formas
de disseminação do vírus (pela água, pelo ar, pelo toque); impulsionamos a
mortalidade. É preciso não confundir simplicidade com facilidade: um bom jogador
não é aquele que constrói o vírus mais mortal e consegue matar uma grande
quantidade de pessoas. Para vencer, como diz a primeira regra de todo jogo, é
preciso tática e estratégia. Até por que jogamos contra o tempo. Enquanto
estamos contaminando e nos preocupando com as formas de contágio, o mundo virtual
está buscando uma vacina, uma cura para sua praga. Por isso é importante criar
estratégia: não adianta incrementar a mortalidade do vírus se você ainda não
contaminou o mundo inteiro. É preciso esforço no contágio, na expansão em
silêncio da doença. Passar despercebido pelos chefes de Estado e sistemas de
saúde mundial é essencial. Se ninguém apresenta sintomas, não há necessidade de
cura, posto que ninguém sabe da existência de um vírus. Só depois, quando o
planeta inteiro estiver contaminado, começa a matança. E este momento é
aterrorizante. A cada grande volume de mortes pelo mundo o jogo libera um áudio
de gritos. Quando um país apresenta perda total (todos morrem), um som terrível
de crianças cantando toca no celular.
Faz dois dias oficiais que estamos em
quarentena no Rio. A Itália precisará de muitos meses para se refazer. Os
países europeus decretaram estado de emergência e estão punindo pessoas que
saem às ruas desnecessariamente. EUA fechou as fronteiras. China está fechada
em si. Inúmeros países do continente africano apresentam casos alarmantes. A
Covid-19 não para de se propagar. Estão jogando Plague Inc., mas não somos nós
os jogadores. Somos os que gritam.
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