Escrever para não perecer


É possível escrever a dor, o silêncio, a saudade e a solidão?
Não utilizo a preposição sobre depois do verbo “escrever” de propósito. Utilizá-la levaria a uma compreensão equivocada do meu questionamento. Minha provocação não parte de querer saber se é possível falar sobre a dor, o silêncio, a saudade e a solidão. Isso nós sabemos que é. Desejo saber se é realizável, através das limitações da palavra escrita, traduzir em signos sentimentos que são vivenciados subjetivamente. Por isso lanço mão do artigo a ao invés da preposição sobre. Tudo não deixa de ser uma questão de escrita. Mas, então, é possível?
Marguerite Duras mostrou ser. Artista múltipla, a francesa nascida no Vietnam encontrou na escrita uma ferramenta para dimensionar os sentimentos humanos. Pois é disso que se trata: da dimensão que as palavras conseguem atingir ao serem tecidas por uma artista. E quando falo em dimensão estou pensando também em experiência. Escrita é experiência. É submeter o leitor a uma sensação (existente ou inexistente) por meio da linguagem. É tratar do ausente pela presença única da palavra.
Ao dizer “estou com uma dor que não cabe em mim” ou “sinto uma saudade desarvorada” ou “o silêncio era tanto que chegava a fazer barulho” ou “o pior da minha solidão era ouvir os meus pensamentos”, estou escrevendo sobre a dor, o silêncio, a saudade e a solidão. Duras é escritora, artista. Não faz isso. A linguagem, para ela, está a serviço da construção do sentido. É palpável, tangível, sensorial, sensual. Não é apenas metonímia e metáfora. É carpintaria literária, alta culinária verbal.
“Minha mãe foi para nós uma vasta planície pela qual erramos durante muito tempo sem encontrar sua dimensão”, escreveu a autora em Cadernos da guerra e outros textos (2009). Experimentamos o sentimento da narradora pela voz emitida: a solidão se faz presente no nosso corpo. E é no corpo que temos a dimensão do que as palavras utilizadas por Duras evocam. Não é preciso muito para construir essa sensação: os melhores escritores e escritoras se dedicaram à concisão na escrita. Escrever mais ou optar por palavras empoladas não tem nada a ver com talento.
“Que fazer da solidão nesta casa? Que fazer? Começou assim, como uma piada: talvez escrever”.
(Continua na próxima semana.)

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