O Brasil que afaga e o Brazil que mata
Estudando e montando algumas aulas, acabei reencontrando um texto afiado do filósofo
Pedro Duarte, da PUC-Rio, para a Folha de São Paulo. Publicado em novembro do
ano passado, meu chará formulou no ensaio uma reflexão sobre o pesadelo que se tornou
no Brasil de 2018/2019-? o sonho de uma nação potente formulada e gerida por
modernistas brasileiros em diferentes contextos. O texto me tocou não apenas
pelas ideias e autores que Pedro mobiliza, mas também pelo retrato de circunstância
que ele evoca: a disciplina “Filosofia da Cultura”, na PUC-Rio, ministrada pelo
próprio Pedro Duarte e que cursei com grande prazer no segundo semestre do ano
passado. Este aspecto é importante de ser evocado porque o
cerne do raciocínio do filósofo está em dois aspectos que me são profundamente
caros: a memória e a identidade, e porque eles estarão presentes aqui também.
A proposta de reinvenção do Brasil formulada
pelos modernistas brasileiros nas décadas de 1910 e 1920, com destaque para os
artistas e intelectuais que se concentraram na Semana de Arte Moderna – sem
querer centralizar a atenção nos protagonistas do evento histórico –, passava
por um projeto que propunha a mescla de uma mentalidade de preservação da natureza somada ao gesto de reelaboração do ser brasileiro através
da cultura. Principalmente: como pensar as brasilidades através de novas linguagens.
Com olhar atento, Pedro Duarte detecta que a potência do “sonho dos modernistas”
se enfraqueceu no tempo presente e perdeu espaço no debate público nacional
depois das investidas violentas e cruéis de uma “ideologia arcaica, autoritária
e anti-intelectual” saída das valas imundas dos bueiros das principais metrópoles
brasileiras. As balas, os bois e a Bíblia (quando apropriada pelos discursos
neopentecostais raivosos) estão alvejando o projeto dos modernistas.
Dois exemplos escancaram a fratura do projeto
de Brasil pensado por poetas, artistas e intelectuais (exatamente os inimigos
do projeto fascista de poder vigente no país): as enormes queimadas na Amazônia
e o incêndio que consumiu o Museu Nacional. O mesmo fogo imortalizado pela Inquisição,
o signo da pulsão incontornável do ódio e da raiva, transformou em cinza e tornou
ruína a natureza e a cultura. É muito significativa a fala do atual presidente sobre
os dois fatos: sobre o primeiro, o já empossado presidente da República começou afirmando
que os incêndios foram provocados por ONGs; depois, fez pouco caso sobre o acontecido até chegar ao
ponto de dizer que não precisávamos de ajuda externa; sobre o segundo, o ainda
candidato à presidência afirmou: “Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o
quê?”. E completou: “meu nome é Messias, mas eu não tenho como fazer milagre”. Fomos
obrigados a ouvir esta mesma frase recentemente, mas agora sobre outro motivo,
não menos chocante.
Ao evocar duas das maiores violências
contra o Brasil recente, Pedro enuncia e coloca em perspectiva a figura de
Oswald de Andrade e seu Manifesto
Pau-Brasil, texto-manifesto publicado em 1924, no jornal Correio da Manhã,
em que o intelectual reivindicava as brasilidades. Mais para o final do
manifesto, Oswald tece dois parágrafos fundamentais:
Temos a base dupla e presente - a floresta e a escola. A raça crédula e
dualista e a geometria, a álgebra e a química logo depois da mamadeira e do chá
de erva-doce. Um misto de “dorme nenê que o bicho vem pegá” e de equações.
Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas;
nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu
Nacional. Pau-Brasil.
A floresta ardeu
em chamas. O Museu Nacional queimou até a ruína. A escola agoniza. O pensamento
crítico é negado e silenciado por gritos guturais de símios bostejantes. A
ciência é negada. Os que sonhavam o lindo sonho de um projeto de nação que unia
a natureza e a escola, a preservação da floresta com uma educação de ponta, se
viu sendo despertado por um balde de água fria. Ou um balde de lama – para não
perder de vista outro marco histórico recente.
Para voltar
ao Manifesto Pau-Brasil, Oswald enumera
espécies de diretrizes àqueles que se propõem a participar do projeto
modernista: “a síntese; o equilíbrio; a invenção; a surpresa; uma nova
perspectiva; uma nova escala”. Ações necessárias para os revolucionários. Sobre estes “revolucionários” que o Brazil deseja matar do Brasil, dois deles partiram
ontem: Aldir Blanc e Flávio Migliaccio.
O primeiro
foi poeta. “Ourives do palavreado”, como o bem definiu Dorival Caymmi – outro representante
do Brasil. Morador da Tijuca, cria do Estácio, Aldir Blanc caminhava com
astúcia entre o erudito e o popular. Sensível, aguçado, perspicaz e
inteligente, Aldir assimilou como poucos – embora sejam muitos os representantes
do Brasil que também compreenderam a mesma máxima – o que Oswald chamou de “ver
com olhos livres”. Liberdade poderia ser sobrenome de Aldir. Aldir Blanc Liberdade.
Ou não é ser livre escrever a linda letra “O Bêbado e a equilibrista” em plena
ditadura militar?
Aldir Blanc
via com olhos livres. Olhos de poeta. Pintou o Rio de Janeiro nas crônicas
semanais. Desenhou os brasis nas letras de suas músicas. O título da coluna de
hoje, por exemplo, é uma referência à música “Querelas do Brasil”:
O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil
Tapi, jabuti, liana, alamandra, alialaúde
Piau, ururau, aquiataúde
Piau, carioca, moreca, meganha
Jobim akarare e jobim Açu
Essa estrofe condensa tudo o que eu acredito.
Nela encontro Machado de Assis, Euclides da Cunha, Ariano Suassuna, Maria Bethânia,
Moraes Moreira e Luiz Antonio Simas – todos representantes do meu Brasil. Esse
Brazil que grafa Aldir é o mesmo “Brasil oficial” que Machado de Assis imortalizou
no texto de 29 de dezembro de 1861 no Diário do Rio de Janeiro: “Não é desprezo
pelo que é nosso não é desdém pelo meu país. O país real, esse é bom, revela os
melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco”.
Ariano Suassuna amava esse trecho de
Machado. Repetia à exaustão nas aulas-espetáculo e nas entrevistas que dava.
Repetia para que não caísse no esquecimento. Repetia para marcar seu
posicionamento. Era radical porque o outro lado, pertencente ao Brazil, o lado oficial
caricato e burlesco, era desonestamente radical. Ariano não deixava passar:
todos nós pertencemos ao Brasil oficial. Somos formados nele. Mas o que nos
diferencia é a abertura para o mundo, a possibilidade de revisar nossas
estruturas e nos abrirmos para o novo a fim de mudarmos. Justamente o que fez
um dos maiores mestres do “cabreiro tresmalhado”: Euclides da Cunha. Os limites
deste texto não permitem dizer muito sobre Euclides agora, mas leiam Os Sertões e vejam a linda moldura que o
escritor produziu. Ou ouçam Aldir Blanc: “O Brazil não merece o Brasil/ O
Brazil tá matando o Brasil”.
O segundo integrante do Brasil que perdemos
ontem foi Flávio Migliaccio. Eu não tive a oportunidade de ver os trabalhos de
Grande Otelo e Mazzaropi com ambos ainda vivos. Meu arrebatamento com esses
outros brasis se deu pelo encontro das obras imortais que deixaram. Mas Flávio
Migliaccio foi um gênio que tive o privilégio de ver na ativa. Não conheço os primeiros
trabalhos que catapultaram seu nome ao estrelato da cultura brasileira. Sou
apaixonado por Flávio Migliaccio através de Seu Chalita, do seriado Tapas e Beijos. E, percebam, um gênio é
verdadeiramente gênio quando se mostra capaz de ser amado por uma geração
distanciada de seu aparente auge. Uso aparente porque Migliaccio sempre esteve
no seu auge. Assim como Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg, Laura Cardoso,
Ruth de Souza, Paulo José, Léa Garcia, e tantos outros. Estes brasis nunca saíram
de seus auges.
O Brasil não morreu, ainda. Muitos e
muitos carregam em si os brasis. As obras que esses pilares deixaram também
estão aí, de forma acessível. O Brazil mostra seus dentes, sua saliva, a baba
contaminada, urra de ódio. Estando acuado, ladra e rosna ainda mais. Aldir partiu
como mais uma vítima do vírus pandêmico. Flávio se suicidou. O Brasil não está
aguentando mais. O suicídio e a carta deixam ver o limite. Tem sido muito
difícil isso tudo.
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