Memórias da dor


A campainha toca. A muito se espera notícias do marido. Madame Antelme caminha rápido até a porta e a abre lentamente. Encostada ao portal, a senhora Katz abaixa os olhos logo que vê Madame Antelme, sua anfitriã em Paris. Seu semblante informa que traz más notícias. Com passos curtos, entra a casa ainda com a cabeça baixa. Suspende o olhar, vira-se para Madame Antelme e a abraça. Duas mulheres, atravessadas pela mesma dor, se abraçam em silêncio. Vemos, num primeiro momento, o destaque do rosto de Antelme (olhos arregalados, tristes, ainda vivos); depois, com o corte de câmera, vemos o rosto de Katz (olhos fechados, rosto amarfanhado nos ombros da colega). “Foi envenenada por gás. Nem sabia que usavam gás. Ninguém sabia. Logo que chegou lá. Faz cinco meses que minha Dora foi para o Céu. E eu não sabia. Ainda estou aqui”.
Nós sabemos do gás. A narrativa do filme dá conta da informação antes. Através da voz em off de Madame Antelme tomamos conhecimento. Poucos minutos antes. “Ouvimos dizer que matam deficientes. Assim que chegam ao campo. Sistematicamente. Não sabemos sobre judeus, o que fizeram com os muitos que saíram de casa. Faz seis meses que a senhora Katz espera pela filha. Esperar a mantém viva. Faz seis meses que a senhora Katz desafia Deus”. A filha da senhora Katz tinha uma deficiência nas pernas.
As duas personagens e as cenas comentadas fazem parte do filme Memórias da dor (2019), dirigido pelo cineasta francês Emmanuel Finkiel, baseado nos dois primeiros textos do livro A dor (1985), de Marguerite Duras. Já falei duas vezes da escritora francesa, mas conhecê-la me arrebatou de tal maneira que tenho me dedicado, em tempos de quarentena, a fruir parte de sua produção direta e indireta a meu alcance.
Marguerite Duras é a personagem principal do filme: ora é chamada de Madame Antelme (sobrenome do marido Robert Antelme, escritor francês enviado ao campo de concentração de Buchenwald, no leste da Alemanha), ora é referida por Marguerite. A perspectiva da narração, acertadamente, está ancorada na angústia, na dor de quem espera um ente num contexto de exceção. Este é um dos fatores a que convém chamar atenção: a guerra é um empreendimento exclusivamente masculino. Forjado numa cultura machista e patriarcal, o combate armado de grandes proporções é, basicamente, a disputa de poder entre um homem (representando toda uma nação) e outro (também representando uma nação); sucessivamente, cada um desses homens enfileiram outros homens para apoiá-los. Em resumo, a guerra é uma realidade criada, gerida e renovada pelos homens. Às mulheres cabe a espera, a solidão, a dor, a angústia, a loucura e o suicídio. Katz e Marguerite (Antelme) são duas personagens que condensam a experiência da espera.
Cada uma, a sua maneira, responde à condição de vazio: a atuação das atrizes é impecável para essa percepção. Enquanto Mélanie Thierry, atriz que interpreta Maguerite, não foge do registro da desesperança – onde o olhar é a marca expressiva da ausência –, Shulamit Adar, atriz que faz Katz, apresenta outra constituição teatral, indicando, quando possível, um olhar leve, esperançoso. “Esperar a mantém viva. Faz seis meses que a senhora Katz desafia Deus”. Desafiar Deus é não se matar. É criar alternativas, mesmo que irreais, para sustentar a presença física na vida.
Outro fator que mobiliza pensamento: regimes de exceção trabalham com excelência a desinformação. Notícias e verdades não são nada frequentes e confiáveis. Distorções, longas distâncias, precariedade tecnológica, são motivos que prejudicam a informação. Este é o argumento de sustentação da senhora Katz: “Tenho que pegar o trem. Vou voltar para Lyon. Nunca se sabe. Talvez não seja verdade. Afinal de contas, é apenas um boato. Pessoas falam tanta besteira... Se ela estiver voltando, é para lá que vai. Precisará de mim lá. Pode não ser verdade o que me disseram”. Talvez não seja verdade. É apenas um boato.
“Dizem que Hitler se matou. Dizem que está morto. Não é certeza”, diz a senhora Katz.
O filme faz pensar outras várias coisas. Convido a todos para pensar junto com ele. É obra de arte.

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